Opinião
Fátima Aparecida dos Santos | 30 de April de 2022

Em Entre o Passado e o Futuro, Hannah Arendt relaciona a práksis e a póiesis com a finitude e a eternidade. Para ela, a póiesis e a fabricação são o que os seres mortais e impermanentes fazem para tentar se aproximar da eternidade. De certo modo, a arte existe neste intervalo amorfo no qual o artista tenta produzir obras poéticas que sobrevivam a sua própria existência ou que façam com que determinado instante, um segundo no tempo, tenha a duração da eternidade.

Conheci Darcy Ribeiro em 1997 quando caiu na minha mão o livro O Povo Brasileiro. Eu, estudante de Desenho Industrial da Unesp, entendia o design como disciplina funcional, impessoal e formal. Jovem e inquieta, me perguntava, qual seria o papel social desta profissão e, eis que ao ler Darcy me entendi como parte de um povo em 'fazimento', com potencial criativo e intuitivo.

A primeira vez que vim à UnB foi em 2005, fazia meu doutorado em Comunicação e Semiótica e vim apresentar um artigo no Congresso Brasileiro de Comunicação que foi realizado aqui naquele ano. Deparei-me primeiro com uma placa que indicava o Campus Darcy Ribeiro, depois com um edifício Anísio Teixeira e João Calmon, pus me diante da história e entendi que não era por acaso.

Ingressei por concurso público como professora Adjunta no curso de design da UnB em 2008, já, e foi aí que descobri o Instituto de Artes, um lugar que nem parecia ser Universidade de Brasília. Muito sucateado e secundário diante da suntuosidade da nossa Universidade. Naquela época quantas vezes dei aula no corredor por falta de sala e quantas vezes não tinha lâmpadas suficientes para iluminar o local.  Percebi que o Instituto de Artes se faz na resistência e na resiliência, superando as dificuldades por amor às artes e à educação.

A história das Artes na Universidade de Brasília provoca uma espécie de viagem no tempo, na qual conseguimos revisitar intenções e movimentos, já que as universidades existem porque promovem o futuro, e no nosso exercício arqueológico vamos descobrindo quais partes do nosso presente foram projetadas como futuro em diferentes momentos do passado. Essa relação triádica temporal nos permite por exemplo pensar o quanto de Darcy nos resta e nos faz, quais projetos para a UnB superaram o seu projeto de criação e qual UnB pensada jamais existirá.

Em 2011, por ocasião das comemorações dos cinquenta anos, a editora UnB publicou o texto Universidade de Brasília, organizado por Darcy Ribeiro em 1961, contendo o nosso primeiro projeto político pedagógico. Chama atenção a posição que as artes ocupam nesse projeto sendo um dos oito institutos centrais ao lado de áreas como a Matemática, a Física, as Ciências Humanas e as Letras. Também observamos a disponibilidade inicial de 500 vagas e a destinação de mais de 11 mil metros quadrados para as dependências do Instituto de Artes. Diga-se de passagem, o número de vagas só foi atingido com o reúne e a metragem só será alcançada com a entrega da UED - IdA, em construção ao lado do Beijódromo.

No projeto encontramos outros índices que coadunam com a importância da Arte e da Cultura na proposição da UnB. Além do ICA, a editora da UnB, o Museu da Ciência, das Artes e da Civilização Brasileira, a Aula Magna formaria o equipamento cultura necessário para a cidade. Darcy escreve que a função da UnB seria também a de " dar a população de Brasília perspectiva cultural que a liberte do grave risco de fazer-se medíocre e provinciana, no cenário urbanístico e arquitetônico mais moderno do mundo."

Repetindo a alegoria da caverna de Platão, as artes na luta contra a anestesia, a mesmice e a ignorância, se colocam também na frente da artilharia pesada do retrocesso, não por acaso dos oito institutos propostos no projeto da Universidade de Brasília o único que desapareceu foi o ICA - Instituto Central de Artes.

Nos arquivos Memórias Reveladas encontramos mais de 30 documentos que provam a sistemática e ostensiva perseguição às artes, qualquer pensamento disruptivo estaria associado ao campo ideológico da esquerda e esta deveria ser eliminada. O ofício 54/BSI/MEC - confidencial de 06/12/68 exige que a UnB encaminhe listagem com nome de artistas contratados para o Instituto Central de Artes com a finalidade de investigar quais nomes seriam ligados à esquerda. Infelizmente documento foi respondido pelo secretário da reitoria e elencava mais de 36 nomes.

Conversando com a professora Nivalda Assunção, vice-diretora do Instituto de Artes, ela relembrou que após a passeata pelas diretas, já na década de 80, o prédio SG1 foi invadido e os estudantes após solavancos foram mandados para casa, o prédio ficou vários dias fechado. Isso no apagar das luzes da ditadura.

Assim o Instituto Central de Artes devastado por interdições, demissões e sucateamento ficou como departamento tímido de desenho dentro da FAU- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e foi reconfigurado como Instituto de Artes já no final da década de 80, após retorno dos anistiados e da democracia.

Foi a partir do esforço de um grupo resistente de artistas que o ICA renasceu como o IdA, além das Artes Visuais e da Música, implementaram-se os estudos em Artes Cênicas e Design. Apesar dos anos de chumbo e dos episódios de retrocesso democrático, a Universidade de Brasília segue construindo uma história de lutas, desafios e superações.

Desde o começo dos anos 2000, inicia-se a investigação artística no âmbito da pós graduação inaugurado pelo Programa de pós graduação em Artes Visuais seguido pela Música, Artes Cênicas e Design. Hoje o Instituto de Artes promove a disseminação da cultura por meio das artes e do design e é também importante formador de professores.

Felizmente podemos dizer que Darcy não lutou sozinho. Graças à poética do tempo, somos parceiros e sucessores de Darcy, seguimos com ele ao nosso lado e estamos construindo uma universidade jovem menina com todo o futuro pela frente. Parabéns às artes, parabéns a UnB, necessária como nunca, atuante como sempre!